Hein? Rastreando minha vida? Na história muito – mas muito mesmo – recente do desenvolvimento tecnológico, houve uma crescente oferta de aplicativos para smartphones, e agora, para os vestíveis (wearables), que, sim, rastreiam a nossa vida. Desde o seu sono, passando pelas suas atividades físicas, sua alimentação e tantas outras esferas do cotidiano.

Se isso soa como novidade, saiba que você já tem softwares e algoritmos medindo sua vida há algum tempo e de alguma forma: o Facebook, ou o Twitter, ou o Google e seus braços, por exemplo, medem sua vida social, amizades, gostos, influência – e nem vamos falar de sexo e relacionamentos por hoje.

Durante duas semanas, eu me submeti a alguns poucos destes vários apps e rastreei a minha vida. Desde o começo de 2015, criei o hábito de correr duas vezes por semana e fazer academia por mais três. Baixei, então, os aplicativos Runkeeper e Guia de Academia para monitorar essas áreas. Para alimentação, usei o Dieta e Emagrecer e, de quebra, o Beber Água para avisar do meu consumo diário de água – dã! Por fim, o Sleep Better ficou de me contar se eu estava dormindo bem ou não a cada noite.

Cada um deles transformou meu cotidiano, ou ao menos parte dele, em dados e metas, oferecendo a mim feedbacks constantes. Não é muita coisa – dava para rastrear muito mais –, mas dá para ter uma boa noção das potencialidades desses usos do celular.

Vale destacar: não é objetivo oferecer resenhas detalhadas sobre esses aplicativos.

1. Primeiros Contatos

A primeira coisa que me impressionou quando comecei a procurar por aplicativos é a quantidade majoritária de programinhas direcionados à saúde, bem estar e/ou esse estilo de vida fitness. Isso, por si só, já diz muito.

Todos os aplicativos exigem um cadastro que inclui dados como nome completo, data de nascimento, e-mail, peso e altura. Bom, eu tenho 23 anos, 1,80m de altura e peso 90kg. Pronto, agora todo mundo já sabe.

Inseridas estas informações, o Dieta e Emagrecer já me informou que eu estava com sobrepeso. Meu IMC (Índice de Massa Corporal) é de 27,8. Sugeriu-me um consumo de 4119 calorias diárias distribuídas em seis refeições, além de exercícios diários para perder essa sobrinha. Cada vez que eu me alimentei, inseri exatamente o que comi no banco de dados do aplicativo: para cada alimento lá registrado – do brócolis ao torresmo –, o app somava as calorias ingeridas. Passei o limite em alguns dias, e o programa fez questão de me repreender. Quando fiquei dentro do limite, ele me congratulou.

O Dieta e Emagrecer tem o péssimo hábito de ficar apitando a cada vez que ele acha que eu devo comer alguma coisa. A minha irritação foi ampliada pelo Beber Água, alarmando incessantemente para que eu lembrasse de tomar os quase quatro litros de água diária, conforme a sua sugestão. O Runkeeper, cialis generique por sua vez, já havia entendido do meu hábito de correr duas vezes por semana e, religiosamente, apitou na terça e na quinta, só para ter a certeza de que a preguiça não me venceria. Duas semanas de alarmes constantes foram, para mim, uma tortura. Os apitos só me deixavam mais e mais ansioso, interrompendo meus pensamentos para avisar que eu devia beber água, comer, malhar, correr… tudo ao mesmo tempo.

Já usei o Runkeeper antes desta experiência. Ele mantém um preciso histórico das suas corridas, coletando dados como distância percorrida e velocidade média graças ao GPS do celular. A depender do seu objetivo (perder peso, condicionamento físico, competição, etc.), ele te sugere treinos, metas e rotinas. O Guia de Academia é semelhante, mas no campo da musculação. Seu diferencial, porém, é o tom mais instrutivo acerca dos vários exercícios possíveis.

O Sleep Better foi o que mais me chamou atenção. Se colocado junto ao seu travesseiro, o celular e seus sensores de movimento conseguem captar o quanto você se mexeu durante a noite para calcular quanto tempo de sono profundo você teve. No modo despertador, ele tenta te acordar no momento em que você está mais propenso a acordar sozinho. Ele te avisa se você está descansado ou não também considerando algumas variáveis: se você ingeriu álcool ou não, se comeu tarde, se teve um dia estressante, e por aí vai.

2. Consciência do corpo?

O que esses aplicativos parecem querer nos vender é uma consciência do corpo. De fato, na vida contemporânea, especialmente nas cidades, o lugar do corpo ficou cada vez menor. Não é preciso ser muito astuto para ter noção disso.

Há um vetor cultural que tem sedado o corpo. O termo “sedar” parece forte, mas é preciso. No livro “O Pensamento Sentado”, Norval Baitello Jr desenvolve sobre este vetor. Cada vez mais – e, agora, potencializados pelos aparatos tecnológicos – nós abandonamos nosso passado nômade e, antes dele, o passado primata saltitante para vivermos sentados em cadeiras e diante de telas.

Essa sedação diminui a consciência do nosso corpo, de como ele funciona. Nós desaprendemos nossos limites e necessidades, subjulgando o nosso corpo a modos de existência que lhe são extremas: as horas no trânsito, a horas em frente ao computador ou até mesmo as horas na academia. É isso aí: o “rato-de-academia” e a “bumbum-na-nuca” não têm plena consciência de seu corpo também. Em frente de um espelho, fazem dele uma imagem para o consumo – lê-se, para o Instagram – e extrapolam suas funções primordiais.

Mas será que esses aplicativos de fato conseguem retomar essa consciência, reativando o corpo? A princípio, fiquei animado com a possibilidade de, talvez, conhecer melhor o meu corpo graças aos dados que eles lançam de volta para nós. Mas, com o tempo, a impressão que eu tive foi justamente a contrária: os apps me tiraram constantemente de mim, do meu tempo presente e dos meus sentidos corporais.

Durante as semanas, a primeira coisa que via toda manhã era a tela do meu celular. No primeiro dia, ele me avisou que eu dormi mal. Isso mudou o meu humor: saber que a minha noite não tinha sido plena me deixou, de alguma forma, ainda mais cansado. Durante os dias, a cada 15 minutos recebia um alarme: coma, beba água. Parece bobagem minha, mas a cada alarme desses, eu era subtraído do meu aqui – alias, aplicativos, em geral, são muito eficientes em nos tirar do aqui e agora.  Os apitos só me deixavam mais e mais ansioso, interrompendo meus pensamentos para avisar que eu devia beber água, comer, malhar, correr… tudo ao mesmo tempo. A partir do momento que o app me dava uma meta, o objetivo de cumpri-la passou a me assombrar.

Mas o pior mesmo veio com os aplicativos de corrida e academia. Eu passei a correr tadalafil troche dosage e me exercitar há um ano justamente porque senti a necessidade de reativar meu corpo. E funcionou. O que me ajudou a correr, particularmente, foi a companhia do meu cachorro Charlie, que pegou gosto de correr ao meu lado, sem a coleira, todo bonitinho.

De lá para cá, consegui encontrar prazer em me exercitar, e sempre o fiz respeitando a mim mesmo. O resultado estético até veio, mas não antes do emocional. Com os app, porém, a coisa mudou. Ele me avisou que meu tempo de corrida não era tão bom assim, e que as distâncias percorridas não eram tão extensas. Então passei a correr para perseguir as metas e, pronto, notei que o prazer tinha diminuído.

Você vai achar que eu estou exagerando. Porém, tenho a sensação de que, se eu fizesse essa experiência por mais tempo, logo não mais faria essas coisas por mim, mas pelo aplicativo. Como se eu sempre tivesse que derrotá-lo em um jogo vicioso. Assim, não é mais o meu corpo o protagonista, mas a imagem do meu corpo que esses programas criam. Não estava me sentindo tão gordo até o aplicativo me dizer que eu estava. Por duas semanas, eu só pensava em emagrecer.

A ideia de que os programas nos trazem consciência dos nossos corpos é um logro, uma ilusão. O que eles fazem, mesmo, é nos levar a consumir imagens de corpo – e, depois, essas imagens nos consomem de volta. De um aplicativo te dizer que você tem sobrepeso a você se olhar no espelho e se achar feio ou feia, é um salto bem curto. Ou então você punirá a si mesmo toda vez que passar da meta de calorias diárias. Eles podem te fazer perseguir um ideal que nem sempre é o ideal para você. Se alguém usa aplicativos como estes e não percebe isso, é porque, talvez, já tenha sido consumido por essas imagens.

Claro, muita gente precisa dessa cobrança constante para manter a dieta ou o exercício físico rotineiro. Mas talvez o que eu esteja querendo dizer é: se você quiser mesmo pegar o hábito de correr, adote um cachorro. Em outras palavras, encontre prazer no seu corpo e no tempo que você dedica a ele. A consciência da qual falamos emana do corpo, não das telas.

3. O celular como medidor da vida

O que mais impressiona nisso tudo é a já irrepreensível capacidade de o smartphone se tornar um medidor das nossas vidas. O aparelhinho tem uma incrível capilaridade – segundo dados da União Internacional de Telecomunicações, já passamos dos 7 bilhões de celulares ativos no planeta. A maioria da população mundial carrega em seus bolsos um computador que, potencialmente, envia e recebe dados sobre tudo que faz ou deixa e fazer.

Quem lida com o mercado de tecnologia sabe que o celular irá, em um futuro próximo, incorporar a Internet das Coisas e, integrado à rede, ajudará a compor grandes bancos de dados sobre nós mesmos, a começar por aplicativos como Runkeeper.

Claro que há potencial positivo nisso, mas estes a publicidade já dá conta de anunciar. O grande potencial negativo parece ser o aumento da dependência por dispositivos. Será que não saberemos correr, comer ou amar sem um app? O aumento desta dependência só nos retira mais e mais do nosso corpo.

4. A ideologia da inovação e o medo da morte

Sou jornalista e tenho trabalhado na cobertura de tecnologia já há três anos. Toda vez que eu engato uma entrevista com engenheiros e empresários do ramo para estes caminhos mais sombrios, eles invariavelmente me respondem: não podemos ter medo de inovar.

Já existe entre nós um imaginário da inovação. Nele, inovação é sinônimo de criatividade, independência e praticidade. É um imaginário, porém, totalmente alinhado para o consumo de marcas e produtos. Já é terra fértil para o florescimento de uma ideologia da inovação que não é muito diferente da ideologia do progresso industrial. Para esta ideologia, a inovação e o desenvolvimento tecnológico são coisas que nunca devem ser paradas, repreendidas ou questionadas. É claro: se fossem, comprometeriam o consumo.

Quando os homens e as mulheres por trás desses projetos falam de “medo da inovação”, eu não consigo deixar de intrigar-me. A questão, aqui, não é ter medo da inovação ou medo da tecnologia, mas saber que por trás da inovação tecnológica existe um medo: o medo da morte.

Retomando: reparou como os apps citados são majoritariamente relacionados à saúde e bem-estar? Ora, por medo da morte, criamos softwares que nos prometem viver mais e melhor, prometem a juventude, prometem a comunicação veloz e sem ruídos. E quem não quer isso? Quem se atreverá a questionar tal nobre ensejo? E este é só um exemplo, talvez o mais óbvio, de como o desenvolvimento tecnológico se encontra relacionado ao medo da morte.

O sonho da vida eterna saiu do âmbito religioso e veio parar em nossos celulares. Só que, dessa vez, este sonho está aí para nos levar a consumir mais aplicativos, mais aparelhos e mais espelhos.

Por medo da morte, colocamos no lugar dela um aplicativo. A consciência da mortalidade é, porém, a própria consciência do corpo em seus prazeres e limites. Olhar para uma tela de celular em vez de olhar para nós mesmos e os limites do nosso corpo é, enfim, sedá-lo.

Comentários

comentários