1. A pornografia é devoradora

Hoje, na atual era de profusão das imagens midiáticas, vivemos excessivamente em e por imagens. Os abdomens perfeitos de academia, a última moda, a foto do perfil do facebook. Nossa própria existência passa ser toda imagética. Somos devorados por elas. O sexo na nossa cultura é envolto por fascinação e medo, tendendo para formas de obsessão. A pornografia seria o ápice de tal obsessão: é fascinante e, ao mesmo tempo, revela o medo arcaico da humanidade de se relacionar sexualmente e corporalmente, ou de se frustrar sexualmente, ou de sofrer rejeição. Por isso, opta pelo virtual, opta pela imagem, porque a imagem é sempre “ideal”. O indivíduo masculino é o grande devorado por imagens pornográficas. Toda sua constituição psíquica é reinada por imagens femininas, começando pela imagem materna. Esta mistura de fascinação e medo o toma. Neste sentido, a pornografia surge como estratégia contra-fóbica. Chegamos a ela por medo do feminino e pela repressão da sexualidade, mas, como em toda imagem, ela só nos faz recordar do próprio medo e da própria repressão. E, ao nos absorver para uma vida em imagens, nos impede de vivenciar o nosso próprio corpo.

2. O que é sexo com qualidade

Confissão: começou a crescer em mim o incômodo com a pornografia quando passei a ter problemas de ereção. Tenho 23 anos. Seria muito improvável que o meu sofrimento tivesse causas fisiológicas. Mudei a minha rotina por causa disso: passei a me exercitar diariamente e a comer melhor. Mas ainda era pouco. Não fiquei surpreso em descobrir que este não era um problema incomum entre jovens da minha idade – todos habituados com imagens pornográficas. Percebi que conseguia ter uma ereção no início da transa, mas a relação se estendia por um longo período sem que eu tivesse prazer. Fatalmente, o soldado era abatido.

O contrário ocorria com pornografia: com o estímulo visual de um vídeo, gozava em, no máximo, dois minutos. Ironicamente, tomava mais tempo para escolher o vídeo do que para ejacular: já levei meia hora. Foi quando me dei conta de que não mais conhecia meu corpo. Sem consumir pornografia, minha ereção voltou. Inclusive meu tempo de “recuperação” depois da gozada diminuiu, conseguindo alcançar mais orgasmos por noite. Descobri que é uma ilusão essa história de querer durar muito no sexo. Tenho amigos que dizem se masturbar regularmente – e usando pornografia – justamente para não gozar rápido na hora da transa. O meu tempo de sexo nesses 30 dias diminui, sim, mas foi muito melhor aproveitado. Eu e minha parceira temos orgasmos felizes.

3. É possível ter orgasmos mais intensos

Isso me leva à outra descoberta: os orgasmos ficam mais intensos. Desde que parei de consumir pornografia, sinto os meus orgasmos mais plenamente. Quando transo, posso perceber cada centímetro do meu corpo em prazer. Curiosamente, é também assim na masturbação. Quando me masturbei sem vídeos ou fotos, só com a imaginação, meus orgasmos se tornaram mais longos e mais intensos. Ocorre que, com pornografia, além do orgasmo ser ridiculamente veloz, ele também é ridiculamente mais insignificante. Quase mecânico.

4. Explorar e conhecer o meu corpo

Acredito que isso aconteça porque, agora, consigo conhecer melhor o meu corpo. Tanto no sexo quanto na masturbação, passei a explorar os meus outros sentidos além da visão. Os homens são extremamente visuais e requerem estímulos visuais a todo tempo, que só serão compensados, hoje, por eventos esportivos frenéticos televisionados e vídeos pornográficos. Isso pode gerar uma baixa consciência do corpo. O homem sabe pouco sobre o seu próprio prazer. Para ele, todo ele se concentra apenas no pênis. Por outro lado, a mulher, menos visual e mais tátil, é capaz de encontrar prazer sempre de forma mais complexa.

A pornografia reforça, portanto, apenas o sentido da visão. E, de tanto estimulá-la, acaba por me cegar para os outros sentidos. No pornô, eu sempre gozava somente para uma imagem visual. Quando passei a não consumir pornografia, criei maior consciência para outras formas de estímulo, principalmente os táteis. Um exemplo besta disso: agora é, para mim, muito mais legal transar no escuro.

5. Explorar e conhecer o corpo da minha parceira

Por conseguir explorar melhor o meu corpo, passei a explorar melhor o corpo da minha parceira. Isto gera uma dupla consequência: estimulando-me mais tatilmente e não visualmente, o corpo da parceira ou do parceiro será ainda mais convidativo – o que renderá prazeres para os dois. Por um lado, passei a encontrar “cantos” em seu corpo sobre o qual nunca havia investido dedicação, o que me dá prazer; e por outro lado, graças à exploração destes novos cantos, pude dar melhor prazer a ela.

6. Compreender melhor minhas próprias necessidades sexuais

Talvez a descoberta mais impressionante seja esta: eu não preciso me masturbar todo dia. Também não preciso transar tanto quanto pensava. Desde que deixei de usar pornografia, tenho me masturbado em menor frequência, ainda que tenha alcançado orgasmos mais intensos. Eu também costumava reclamar para a minha parceira: achava que transávamos muito pouco. Agora não sinto mais este incômodo. Em parte, porque temos transado mais. Mas, também em parte, porque estou mais satisfeito comigo mesmo.

Criei a hipótese de que muito do meu desejo sexual era instigado pela própria pornografia. Quanto mais eu usava, mais eu sentia necessidade de receber aquele estímulo de novo. E eu projetava esta obsessão à minha parceira de um modo pouquíssimo saudável, exigindo dela mais sexo. Ela, coitada, nunca seria capaz de me satisfazer: eu só tinha tesão por imagens. Tanto é que guardava o desejo de nos filmar transando para assistir depois – traduzindo: a ideia de transformar o corpo da minha namorada em uma imagem me excitava. Depois da experiência, este anseio obsessivo pelo sexo se enfraqueceu, o que diminuiu em muito as minhas frustrações sexuais. Logo, penso que sou capaz de compreender melhor quais são, de fato, os desejos e necessidades do meu corpo.

7. Não há sexo em filmes pornô

Diminuíram as minhas frustrações também porque diminuíram as minhas expectativas ridículas para o sexo. A encenação dos filmes e fotos nos conduz a pensar que aquilo é “real” quando já se trata de um hiper-real, de um real mediático e idealizado.

Logo, não há sexo em filmes pornô. É um logro, um artifício.

Quando nos entregamos intensamente ao hiper-real, nos frustramos ao depararmos com a realidade imediata dos nossos próprios corpos. O que é, também, pouco saudável para nossas relações. Sem consumir pornô, estou tendo a oportunidade de, pela primeira vez, realmente conhecer o sexo e a minha sexualidade. Vivendo-os imediatamente, no presente do meu corpo, e não mais no hiper-real. Talvez eu esteja simplesmente perdendo o medo.

 

Por João Manuel Correia

 

 

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