1. A reclamação é instintiva

Afinal, o que seria a reclamação, um sentimento interior quase instintivo ou o sentimento que expomos ao outro? Se for o segundo, é muito mais fácil a gente controlar – em teoria. Se for o primeiro, então talvez eu tenha falhado nessa OXO. Minha jornada durou quase sete dias e já começou mal. Naquele primeiro dia o celular despertou, mas eu por algum motivo não o ouvi. Sei que acordei muito atrasado e levantei de supetão, preocupado. No pulo, reclamei e acordei minha esposa. Fui pro banheiro rapidamente, abrindo a porta com violência, e me joguei embaixo do chuveiro pra tomar banho, o que me atrasaria mais ainda e me faria reclamar mais. Foi tomando banho, que percebi que havia reclamado quando não deveria tê-lo feito. Foi nesse momento que percebi que a reclamação é instintiva, ela nasce dentro de nós, e quando estamos desatentos, ela se externaliza.

2. Ficar sem reclamar é uma tarefa difícil

Foi realmente muito difícil ficar sem reclamar a todo o momento. Externalizar isso para o próximo tira de você uma carga pesada de estresse. Então a gente sempre encontra uma forma de reclamar. Não reclamei no trabalho, pra ninguém, em momento algum, e isso me deixou bastante estressado. Enfrentei o trânsito de volta pra casa de uma forma diferente. Fui mais violento, mais agressivo, zigue-zagueei pelas faixas, costurei os carros, queria chegar logo em casa, talvez pra ligar o tal do vídeo-game e desconectar do mundo. Quando cheguei, porém, reclamei novamente. Estava sentado à frente do videogame quando ouvi minha esposa dizer que eu deveria lavar os pratos. A reclamação simplesmente saiu, sem que pudesse me lembrar que tinha uma OXO pra fazer.

3. É preciso ter atenção o tempo todo

Essa falta de reclamação durou por mais dois dias. Estava bem comigo mesmo. Brinquei, fiz piadas, provoquei momentos desconcertantes, o que costumo fazer com certa frequência, mas não tive nenhum momento que me fizesse pensar em reclamar. Essa força foi diminuindo depois desses três primeiros dias, e no quarto, reclamei no trânsito. Um carro me cortou e, além de xingá-lo em voz alta, resmunguei por alguns minutos depois. Foi tão automático que eu não havia percebido. Depois dessa reclamação, elas começaram a aparecer com mais frequência. Nos momentos em que eu estava concentrado em meu objetivo, eu conseguia engolir alguns sapos, mas nos momentos em que eu não estava sob total controle de meus sentimentos, eu acabava por soltar uma reclamação aqui e ali. Era muito incomodo pra mim ficar sem reclamar.

4. A reclamação contamina o ambiente e as pessoas

Foi no sexto dia, quase sem mais aguentar, que sentei numa mesa de bar com um amigo de infância, tomei umas duas doses de São Francisco e algumas cervejas e desatei a reclamar. Falei sobre diversos problemas que havia tido nos dias anteriores, mas não comentei de minha OXO. Tomei para mim mesmo que eu deveria enfrentar as situações como elas são, pois só assim a experiência seria real. O desabafo com o amigo foi relaxante. Parecia que eu havia tirado trezentos quilos de peso das costas. Ele, porém, não parecia muito feliz enquanto ouvia todas as minhas lamentações. Percebi, durante todo esse processo, que a reclamação é negativa, contagia o ambiente e as pessoas. Principalmente aquelas que estão ouvindo a reclamação diretamente. Não houve um sétimo dia. Reclamar, como todas as coisas negativas que temos no nosso dia-a-dia, faz parte da vida, e é necessário. Só desligando-se dos sentimentos é que se consegue viver sem reclamar. E eu não estou nada preparado pra isso. E muito menos quero ser assim.

 

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