Quebrei o padrão de beleza, e gostei

Um relato sobre a alegria se olhar no espelho e se reconhecer

Na foto, Jaqueline Lima que assumiu sua beleza e suas raízes

1. A história dos meus cabelos

Qual a História dos seus Cabelos? African(idade). Nasci com o cabelo crespo, sarará, grudadinho na cabeça que só. Passaram-se os anos, crescia eu, minha juba e o jeito desajeitado de minha mãe que desembaraçava com Neutrox e babosa os meus nós. Minha mãe não tinha tanta paciência e me colocava no meio de suas pernas porque tinha que puxar, no entanto sempre me dizia:” Minha filha, esse cabelo você não vai alisar!” Minha madrinha também fazia em mim lindas tranças sempre no intuito de alerta: ”Menina, seja esperta”.

2. A ditadura das Barbies, Suzies e Pollies

Fui estudar. No Pré, sempre fui uma criança interessada. De segunda á quinta desenhava, pintava, escrevi precocemente, na massinha de modelar moldava grandes figuras, mas sexta-feira era meu dia preferido, pois era dia de levar brinquedo, de fazer travessuras. Barbies, Suzies, Pollies, tudo boneca que não parecia comigo. Delas sempre quis ser mamãe, mas as meninas que pareciam com as bonecas queriam que eu fosse babá. ”Ah vá” isso naquele dia eu não deixei, mas esse espírito de guerreira Dandara, Luiza Mahin, Elisa Lucinda, de matar um leão por dia, não exercitei. Matei minha juba. Cheguei em casa e num belo dia alisei e me tornei dependente dessa química que feriu minha auto-estima, meu couro cabeludo e minhas Raízes.

3. O processo químico e minha auto-estima

Amônia, Guanidina, ”Toin Flopt”, coisa que nunca tinha ouvido falar. Minha tia alisava meu cabelo, mãe e pai deixaram, pois viram que eu ficava feliz pelo menos no começo do mês. Pai preto dizia: ”Deixa, mulher…Se ela fica feliz eu vou comprar mais essa vez.”. Nego sábio que colocava Noite Ilustrada, Paulinho da Viola, Bezerra Da Silva pra eu escutar. Não deixava minha Raiz crescer. Meu cabelo caiu e meu mundo também para felicidade das crianças cruéis: Cabelo de Alface, de ovelha, cabelo duro, pixaim, bom-bril, tufão… Como eu sofria com aquele turbilhão!

4. Meu orgulho e minhas raízes

Minha raiz querendo crescer e eu não deixava, e insistia em querer parecer as bonecas, em me inscrever nos Talentos Brilhantes pra ser Chiquitita, já que não podia ser Paquita. E insistia mais e mais negando minha identidade negra, tanto que quando o moço do IBGE bateu lá em casa me classifiquei Parda, até que a química detonou meu cabelo mais uma vez e fui aparar, reparar: as pontas e meu erro.

Mandei cortar e chorei. Chorei, mas não foi de tristeza não. Foi um choro aliviado… Me achei linda demais, me assumi finalmente. Que alegria se olhar no espelho e se reconhecer, se encontrar e a partir daquele momento determinei: ”Eu sou linda, negra e me reconheço.” E percebi que quando a gente se sente linda e se assume, o mundo também é obrigado a te aceitar. Há seis anos tenho Black Power. Me chamo Jaqueline Lima Da Silva, Brasileira, filha de pretos, descendente de africanos e índios, Preta.

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