A ilustra acima é de Cecília Silveira para o site Think Olga, e faz parte da campanha “Chega de Fiu-Fiu”.

1. É assustador

Quando criança, eu era magra e comprida, nada próximo do padrão imposto para ser uma “mulher atraente”. Não me importava com isso afinal, eu era uma criança. Já a minha irmã – 6 anos mais velha do que eu, tinha o corpo mais desenvolvido. Todas as vezes que eu saia com ela, sentia asco de como muitos homens a olhavam e das coisas que diziam. Então, adquiri o costume de colocar meu corpo na frente do dela, assim (na minha cabeça infantil), poderia protegê-la dos assédios. Fiz isso durante muito tempo, até que um dia, enquanto eu descia a ladeira da rua da minha casa para ir à padaria, um caminhão com dois homens passou, e eles fizeram a mesma coisa que os outros homens faziam com a minha irmã mas, dessa vez ela não estava comigo. Nesse mesmo dia, meu lugar no mundo mudou, percebi que meu corpo havia se desenvolvido, não só porque as minhas roupas que já não serviam mais, mas também porque passei a receber certos olhares doentios. Não pude mais proteger minha irmã com meu corpo, pois agora ele também era um objeto de desejo.

2. Que é cruel quando usamos a técnica do “desaparecimento” por medo

Quando adolescente, minha repulsa por esse tipo de atitude aumentou ainda mais, mas não sabia como lidar com isso então, virei adepta da técnica do “desaparecimento”, usada por muitas mulheres: Usava camisetas largas para não marcar meus seios fartos, calças folgadas, tênis confortáveis, caso eu precisasse correr e blusas de frio. Tudo que ajudasse a descaracterizar meu corpo de mulher.

3. Ser mulher no mundo em que eu vivo é ter consciência da luta

Hoje, mesmo com 24 anos e ainda não sei lidar com este tipo de abordagem. Vejo os jovens sendo educados pela indústria pornográfica, onde o homem é satisfeito e a mulher satisfaz (custe o que custar); vejo os pequenos meninos serem incentivados a terem namoradas e serem “garanhões”, e as meninas  a esperarem o grande amor, portador de sua virgindade e amor eterno (pode parecer algo tão antigo, tão ultrapassado, mas sim, ainda existe). Vejo os homens cada dia mais confiantes sobre seu lugar de predador no mundo, e nós, mulheres, no lugar das corças, que saem para pastar sempre alertas, com orelhas empinadas e olhos arregalados, pois qualquer vacilo, pode ser fatal.

4. A coragem é minha maior aliada

Um dia, eu estava em um restaurante com uma amiga, e um homem (na confiança plena do seu poder) se aproximou e começou a nos fotografar. Nos sentimos terrivelmente agredidas com essa atitude então, fomos tirar satisfações. Ele veio para cima, inconformado com a nossa reação negativa. Resumindo: eu tive um osso do braço trincado e minha amiga o braço todo arranhado. É assustador, é absurdo, mas, o pior de tudo é que enquanto ele nos agredia, fisicamente e moralmente ele dizia “Vai! Me denúncia. Vocês acham que eu vou para cadeia? Acham mesmo? Vai! O que vocês vão fazer?” . Um grupo que comia em uma mesa próxima percebeu a movimentação e se aproximou. Nesse momento, o gerente apareceu e disse que poderiam fazer o que quisessem com ele, mas fora do estabelecimento. Claro que não linchamos o rapaz, ou algo do tipo. Ele foi embora, um pouco assustado, mas sem dúvidas, retomou o ritmo da vida pouco tempo depois.

5. Ser mulher é saber o seu lugar: que é o que você quiser!

Muitas vezes me sinto mesmo uma corça pastando, assustada e em alerta em plena cidade onde vivo. Me pego evitando sair a noite sozinha, fugindo de ruas vazias, evitando o lugar da janela no ônibus com medo de ser encurralada, ou usando algumas roupas do “desaparecimento”, não por me sentir bela, mas para me anular. Cansei de ser e ver minhas companheiras nesse lugar inofensivo, da presa! Se tem uma coisa que as cantadas me ensinaram foi: sou mulher e me orgulho plenamente disso. Estou encontrando meu lugar de potência, meus direitos, minha maneira de respeitar à mim e minhas companheiras, fora das leis de convivência e moral impostas pelo patriarcado. E assim como fazia quando criança, devo continuar “colocando meu corpo a frente” de todos esse abusos. Cansei! Machistas não ditarão mais a minha forma de viver.

No tapete vermelho de Hollywood, a premiada atriz Cate Blanchett questiona a “câmera glamurosa” do canal de entretenimento e celebridades E!:

“Vocês fazem isso com os homens?”. Não, não fazem.

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