1. Eu ainda adoro meu carro    

Vou diariamente de bicicleta ao trabalho e sou muito feliz em ter um carro na garagem. Sinto até um certo orgulho por algo tão contraditório. Questionar a utilidade de um automóvel é uma tarefa inglória que eu dispenso. O problema é quando ele assume um papel tão protagonista e centralizador que escraviza. Carro é muito bom e útil. E, sou um dos felizardos não escravos dele. “Um carro a menos” é um slogan interessante, mas sempre preferi “uma bike a mais”. Sutil, mas muito diferente.

2. A bike não vai mudar o mundo, mas pedalando temos mais chances

A bicicleta é exatamente igual aos demais veículos em um quesito central: é pilotada por um ser humano. Por isso, é preciso admitir que fazemos bobagens, nos distraímos e, invariavelmente, tentamos levar vantagens sobre os outros. Culpar ou idolatrar modais é uma tentativa de escape para algo que cabe ao indivíduo. E pode ser frustrante a decepção com os conflitos que mais bikes na rua podem causar. No entanto, convenhamos, é muito mais difícil ser coletivo dirigindo um carro. Preso ao trânsito que nós mesmos construímos, nos transformamos em algo irreconhecível. Digo isso por experiência própria. E admito que já fiz bobagens pedalando também. Mudar é um exercício diário. E isso me leva à outra lição.

3. Em duas rodas, não pense como um motorista

Há inúmeros motivos, vantagens e compromissos ao optar por utilizar a bicicleta nos deslocamentos do dia-a-dia. Mas uma só missão: reconhecer que optei por uma mudança de estilo. O carro fica em casa e tento algo diferente. E isso não pode ser feito com a mesma mentalidade de outrora. A bike é uma escolha e traz com ela um compromisso com o prazer da viagem. Acredite em mim, pode ser muito mais perigoso e estressante compensar o atraso pedalando, telefonar para alguém, se maquiar ou tentar ler o jornal. Disputar milímetros ou avançar no sinal amarelo não deve fazer parte da rotina de um ciclista. Se isso for essencial para você, vá de carro. Ah, se você gosta de pedalar ouvindo música alta também recomendo algo muito legal: spinning.

4. Compartilhar discurso e atitude

Ao deixar a mentalidade do motorista para trás ficou mais claro entender que não devo pensar só em mim. Reclamo dos motorizados e não consigo ser tolerante com quem se move ao seu redor? Desde a senhorinha com o carrinho de feira, o maltrapilho que se arrasta embriagado e aquele corredor que insiste em correr pela via pintada de vermelho. Todos cabem ali comigo. A segregação recente se justifica justamente pela incapacidade dos mais fortões cuidarem da bicicleta, mais frágil. Nego-me, terminantemente, a idealizar o respeito de ônibus e caminhões ao passarem por mim a mais de 60 km/h e ser incapaz de conviver com um pedestre. O compartilhamento é recomendável, inclusive, faço uso do mesmo raciocínio ao utilizar a calçada em vias nas quais me sinto inseguro no asfalto. Afinal, tenho o direito e o dever de voltar para casa vivo.

5. Tudo que se move pedalando é ciclista – e humano

Diferente dos outros modais, ciclista não tem idade mínima, carta ou treinamento. Recebem o selo de ciclistas os mais variados tipos. Do pré-adolescente que pedala de chinelo ao empresário triatleta com conjuntos aerodinâmicos que custam mais do que um carro. Tem sido cada vez mais comum, junto com as discussões sobre o espaço do ciclista no trânsito das principais cidades do Brasil, a retórica de más experiências vividas por não-ciclistas. Isso é óbvio e sempre vai existir, pelo menos até os veículos do Google tomarem o planeta. Toda vez que ouço isso, surge a imagem desta mesma pessoa buzinando para uma van, sendo fechada por uma SUV ou discutindo com um motoboy que ultrapassou levando junto o retrovisor. São humanos vivendo em coletividade. Há inúmeras iniciativas legítimas em prol da mobilidade e do uso da bicicleta. Uma vacina anti-imbecilidade porém, ainda está por vir.

 

 

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