1. O açúcar é viciante

Quando eu escutava a palavra vício, era óbvio pensar só naqueles que a sociedade dá mais importância. Sorte que sou livre de todos esses. Infortúnio que estou dependente de outro: o açúcar. Nunca fui julgado em revelar o meu prazer em comer coisas açucaradas, afinal, parece um vício meigo. Acontece que, ficar sem consumi-lo é terrível por conta da irritabilidade. Reparei que a forma como os quitutes açucarados são servidos é afetuosa. Eu aceitei o desafio OXO e passei sete dias sem comer doces. Não foram dias fáceis, mas importantes para eu exercitar o meu autocontrole, entender mais coisas sobre mim e sobre quem me cerca.

2. O açúcar dosa as emoções

Pelo menos duas vezes por semana, passo em um supermercado localizado na Vila Mariana. Lá dentro, há uma lanchonete onde vendem a melhor tortinha de morango da cidade. Às vezes, não estou num dia muito bom e comer uma ou duas costuma melhorar o meu ânimo na hora! Quando já estou entusiasmado, ela só potencializa o meu bom humor. Cada mordida é como um passo no paraíso. E ali estava eu: diante das apetitosas tortinhas. Preferi nem olhar muito e optei por um dos salgados. Ouvi a atendente perguntar: “bebida acompanha?”. Era água ou algum desses refrigerantes zero – que eu escolhi. Sempre fui resistente a esses refrigerantes, pois eu ouvia que eles continham doses excessivas de sódio. De fato. Contém mais que o dobro, comparado às versões clássicas. São 49 mg contra 18 mg. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ingestão de sódio diária recomendada é de até 6 gramas.

3. O açúcar é cultural

Tudo parece estar sob controle. Só parece. À noite, senti muita falta de comer algo doce. Fui à cozinha e procurei algo que pudesse silenciar tal sensação. Só havia biscoito amanteigado e iogurte. Me imaginei raspando uma barra de chocolate nos meus dentes inferiores. Contive o leve desespero com alguns copos d’água e aquele dia, enfim, terminou. No terceiro dia, uma surpresa bem intencionada. Minha mãe havia trazido um rocambole para mim. Vi que estava bem recheado com doce de leite e coberto com coco. Resisti. Comecei a perceber o quanto as pessoas têm o hábito de querer agradar com doces. Não conheço o mundo todo para afirmar, mas pelo pouco que conheço e sei, isso é da cultura humana.

4. A restrição do açúcar amarga a minha vida social

Os dias passaram e eu fortaleci cada vez mais o meu autocontrole. Chegou a sexta-feira santa – dia de almoçar com a família. Recusar doces foi desconcertante. Não pelo fato de não poder provar as guloseimas, o desagradável era ter que me explicar. Foi um dos momentos em que eu me conheci melhor. É muito chato dar explicações sobre coisas que eu quero fazer ou não. O prato principal da sagrada sexta-feira santa era peixe. Na minha lei, peixe é acompanhado de Coca Cola. Descobri que a lei é minha e eu posso quebra-la quando eu quiser. Acredito que isso pode servir para tudo na minha vida. Tomei água. A vontade de dar só um gole naquela bebida preta e gasosa foi grande, mas o copo d’água me fez esquecer o desejo. Dei conta do quanto as pessoas me oferecem doces. É feio recusar. Mas eu descobri que eu sei me controlar e dizer não quando necessário.

5. A vida é agridoce

Chegou o domingo de páscoa. Os sete dias já haviam. Não por isso. Foi a primeira páscoa em que eu não mordi nenhum chocolate e isso não foi o fim do mundo. Os doces e os refrigerantes ainda me faziam vontade, mas o meu corpo não sentia mais falta. Imaginei que seria possível passar o resto da minha vida sem doces. Até que a vida mostrou algo. Aquele domingo de páscoa coincidiu com o 83º aniversário da minha avó. Estávamos em família e fizemos uma pequena festa de aniversário para ela. Depois de cantarmos parabéns, houve aquele momento dela escolher para quem dar o primeiro pedaço de bolo. Ela deu passos misteriosos. Para minha surpresa, ela se aproximou de mim. Me olhava nos olhos com emoção. Eram olhos que sorriam. Irremediavelmente, eu sabia que aquele primeiro pedaço seria para mim. Aceitei e agradeci. Fiquei estático com o gesto. Não comer aquele bolo seria desfeita com uma das pessoas que eu mais amo. Eu descobri que eu posso, sim, consumir doces com moderação. Fazer com que ele não seja vício é questão de querer. Hoje, eu consumo menos açúcar. Por opção.

 

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