1. Aprendi a ser mais prestativo com as pessoas

Então esta experiência tem início no instante após receber o pedido do editor: estamos no dia 6 de novembro, uma sexta-feira daquelas onde, pela janela, eu vejo a marginal Tietê, toda parada, tanto os carros quanto a água morta do rio. Uma composição quase toda imóvel. O olho agora se foca em primeiro plano e estou dentro do Estadão, mais precisamente na minha mesa ordinária no setor de economia, local este onde tenho sido um trainee pelas últimas 8 semanas (e ainda seria pelas quatro seguintes). Somos, nessa ala da redação, umas cem pessoas. Na outra ala, mais cento e cinquenta almas.  Enfim, com elas eu deveria me virar na missão dada pelo editor.

Missão trabalhosa essa – trabalhosa porém profunda: conseguir 10 obrigados por dia, durante 30 dias. No dia 6 de dezembro eu deveria aparecer com o valor mínimo de 300 valeus na conta, e contar a história por trás de alguns deles. Ao desligar o computador e ir embora para casa, imaginei a furada que foi ter aceitado o desafio. O elevador foi descendo os andares do jornal e, em um dado pavimento, a porta abre e ninguém entra. Quando esta começa a se fechar, ouço o bater de um salto lá longe e, numa ação meio instintiva, seguro a porta da cabine, para que aquela senhora baixinha cheia de pastas na mão entrasse para essa lista como o primeiro obrigado da lista.

Trinta dias depois, ainda sentado na redação mas em outro setor, já perdi as contas de quantos obrigados eu recebi. Sei que foram mais de 300, e na maioria dos últimos 30 dias a média diária foi batida com folga. O que indica que, em algum momento, aprendi a ser mais prestativo com as pessoas. Não que antes eu fosse algum tipo de misantropo desgraçado, mas pouco a pouco comecei a notar que devia fazer mais pelos outros. No começo isso era uma tarefa obrigatória – se passar por uma Madre Teresa em troca de um reles agradecimento. Depois você nem nota mais.

2. Sua mente passa a ser uma cama elástica

Em algum momento do ano passado, o meu antigo professor de yoga associou a paz de espírito a uma cama elástica: quanto mais treino, maior a resiliência dela para coisas mais pesadas.

Estamos já na última semana do desafio. É quase meia-noite e eu completo uma jornada de trabalho que, incluindo aí uma meia hora de almoço, completam 13 horas. E, mesmo depois de treze horas, nada como receber um daqueles deliciosos esporros indiretos né? A resposta atravessada, programada para explodir a centímetros de você e te acertar com mais estilhaços. Pois bem, foi uma dessas que me atingiu, onze e lá vai cacetada, no meio da redação.

Ok, o que fazer: a clássica troca de tiros? Devolver na mesma moeda? Ou simplesmente erguer a voz, colocar o nome da pessoa no sujeito simples e descer alguns dos melhores predicados que vierem à conturbada mente nos próximos segundos? Ou que tal a máxima oriental de tratar como gostaria de ser tratado.

Então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, resolvi bancar a última. Virei o jogo, apelei pra não-violência e, além de ter conseguido resolver o tal problema (uma pendência sobre um produto que estávamos elaborando), os atores da cena (eu incluso) não protagonizaram mais rusgas. Não devia, mas poderia levar isso como um obrigado também.

As fotos exibidas nesta OXO são do Gustavo Moura

Conseguir obrigados demais ativa o nosso lado mais humano – e nos faz ter um estranho vício, instintivo, de querer mais.

Guilherme Mendes

3. Você aprende a cotar o valor de um obrigado (e começa a notar que ele tem sido desvalorizado)

 

No subtítulo, lembrei-vos de que o obrigado é importante, mas que é fácil demais conseguir um. De levar um copo de água para alguém à levar alguém engasgando para um hospital, fazer com que isso ocorra acaba por tornar cada um de nós cidadãos mais iluminados sobre nossa própria existência.

Isso até uma certa hora.

Hora essa sendo aquela que, quando você vê, tudo está sendo convertido a um obrigado. Uma simples troca de e-mail acaba virando um, a porta que você segura vira outro e, como flores no campo, eles vão brotando. Em algum momento, você nota que tem muitas dessas flores para você.

Aí vem a parte ruim: somos humanos. E somos a raça que mais perseverou nessa terra dura apenas por nossa própria vontade de querer mais. Evoluímos, avançamos até nos autodestruírmos por querer mais. E, quando você cumpre sua meta de 10 obrigados por dia, ao final, a missão parece inútil. Afinal, teria sido mais desafiador, talvez, ter tentado 30 obrigados por dia, quem sabe aparecer lá no final com 900 deles. Conseguir obrigados demais ativa o nosso lado mais humano – e nos faz ter um estranho vício, instintivo, de querer ajudar mais.

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